quarta-feira, 14 de março de 2007

"O touro devia ser neste país como o ensino é lá fora: gratuito e obrigatório."

Houve quem dissesse, um dia:
"O homem que for para a cara de um toiro fará o que para muitos é considerado temeridade e para nós portugueses apenas uma pega de caras."


Esta simples, curta, clara e magnífica frase, que diz tanto em tão poucas palavras, torna-se complexa dada a sua simplicidade, e imensamente profunda e de um nível tão alto que está somente ao alcance de alguns. Ainda assim, quando no final do Século XIX houve uma tentativa governamental de proibição da actuação dos forcados na Praça de Toiros de Lisboa, escreveu Ramalho Ortigão: "(...) às razões de brandura de costumes, de humanidade, de filosofia, de civilização, invocadas pelos que dirigem esta jigajoga, eu, humilde intérprete do povo, só uma coisa oponho: é que má raios partam o zelo tísico de tanto maricas, de tanto chochinha, de tanto lambisgóia!”

No mesmo sentido, veja-se a literatura de Eça de Queiroz, numa das suas maiores obras literárias, em “Os Maias”, na voz de Afonso Maia:

“- O verdadeiro patriotismo talvez, disse ele, seria, em lugar de corridas, fazer uma boa tourada.
Dâmaso levou as mãos à cabeça. Uma tourada! Então o Sr. Afonso da Maia preferia touros a corridas de cavalos? O Sr. Afonso da Maia, um inglês!...
- Um simples beirão, Sr. Salcede, um simples beirão, e que faz gosto nisso; se habitei a Inglaterra é que o meu rei, que era então, me pôs fora do meu país... Pois é verdade, tenho esse fraco português, prefiro touros. Cada raça possui o seu sport próprio, e o nosso é o touro: o touro com muito sol, ar de dia santo, água fresca, e foguetes... Mas sabe o Sr. Salcede qual é a vantagem da tourada? É ser uma grande escola de força, de coragem e de destreza... Em Portugal não há instituição que tenha uma importância igual à tourada de curiosos. E acredite uma coisa: é que se nesta triste geração moderna ainda há em Lisboa uns rapazes com certo músculo, a espinha direita, e capazes de dar um bom soco, deve-se isso ao touro e à tourada de curiosos...
O marquês entusiasmado bateu as palmas. Aquilo é que era falar! Aquilo é que era dar a filosofia do touro! Está claro que a tourada era uma grande educação física! E havia imbecis que falavam em acabar com os touros! Oh, estúpidos, acabais então com a coragem portuguesa!...
- Nós não temos os jogos de destreza das outras nações, exclamava ele, bracejando pela sala e esquecido dos seus males. Não temos o cricket, nem o football, nem o running, como os ingleses; não temos a ginástica como ela se faz em França; não temos o serviço militar obrigatório que é o que torna o alemão sólido... Não temos nada capaz de dar a um rapaz um bocado de fibra. Temos só a tourada... Tirem a tourada, e não ficam senão badamecos derreados da espinha, a melarem-se pelo Chiado! Pois você não acha, Craft?
Craft, do canto do sofá, onde Carlos se fora sentar e lhe falava baixo, respondeu, convencido:
- O quê, o touro? Está claro! O touro devia ser neste país como o ensino é lá fora: gratuito e obrigatório.
Dâmaso no entanto jurava a Afonso compenetradamente que gostava também muito de touros. Ah, lá nessas coisas de patriotismo ninguém lhe levava a palma...”

5 comentários:

Francisco Sequeira disse...

Exímio, brilhante, espetacular, suberbo, bom, razoável e até bonzito são palavras que ficam à quem deste belo texto. Abram os olhos, mas se não gostarem mesmo, não olhem.

António disse...

Bem...!!!

Rui Morraceira disse...

Um abraço,sorte e tudo de bom para esta temporada 2007

Anónimo disse...

boa sorte para todos e boas pegas....abraço a todos

Anónimo disse...

Excelente Zé
Saudações do colega de escritório. Qualquer dia temos o Sócrates a dizer que não gosta de touradas como disse hà pouco tempo que não gostava de fado.
É preciso ensinar o homem.
Tiroliro